Friedrich Nietzsche

“O esforço dos filósofos tende a compreender o que os contemporâneos secontentam em viver.”

Sigmund Freud

“Não, nossa ciência não é uma ilusão. Ilusão seria imaginar que aquilo que a ciência não nos pode dar, podemos conseguir em outro lugar.”

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

A inteligência do posicionamento ateísta

INTRODUÇÃO


Este não é um texto como outro qualquer. Não é apenas mais uma argumentação em defesa do ateísmo, ou atacando a crença em um deus, ou deuses. Muito mais do que defender o ateísmo, este é mais um que descreve a luta contra o preconceito. O ideal deste texto é esclarecer aos que tem dúvidas acerca do assunto – ateísmo – ou que desconhece, ou, em última análise, os que classificam esta “ideologia” de forma pejorativa e negativa; a idéia é apresentar uma argumentação visando o esclarecimento a cerca da ausência da crença em um deus, ou deuses. Aliás, o próprio termo “ideologia” não se encaixa ao ateísmo, pois este é mais do que uma ideologia, mas isto será bem explicado ao longo da argumentação que preparei.


1. O QUE O ATEÍSMO É, E O QUE O ATEÍSMO NÃO É


O principal objetivo desse texto é apontar as razões intelectuais do ateísmo. Porém, ser ateu não implica necessariamente em intelectualidade – existem ateus que apenas não crêem e pronto; não vêem razão ou necessidade de uma explicação melhor para a origem da vida e do Universo. Para atingir o objetivo proposto, é necessário explicar o que de fato o ateísmo é, e o que o ateísmo não é. Isso é um pouco mais complicado do que parece, pois há um leque de classificações negativas atribuídas ao ateísmo. Classificações completamente equivocadas e que pretendo desmontar a seguir.

1.1 Ateísmo é...

Há uma série de “crenças” equivocadas a cerca do ateísmo. Minha intenção, neste momento é desmistificar esta “ideologia”, acabando com as falsas idéias que existem a cerca deste posicionamento. A única maneira de atingir este objetivo é explicar o que de fato o ateísmo não é. Mas antes disso, é necessário explicar o que o ateísmo é. Não se pode começar pelo fim; é deveras importante compreender o ateísmo antes de desmon-tar as falsas idéias que são alimentadas sobre este.

O termo ateu vem do prefixo grego a-, significando “ausência”, e do radical “teu”, derivado de theós, que significa “deus”. Ateu significa, literalmente, aquele que não tem deus (ou deuses), que não possui crença em um deus (ou vários deuses). É muito importante que isso fique bem evidenciado e que se tenha sempre isto em mente durante toda a leitura: “[aquele] que não possui crença em um deus (ou vários deuses)”.

Ser ateu é mais que uma ideologia ou uma filosofia; ser ateu não compreende qualquer linha de pensamento filosófico, ideológico e/ou político. Uma ideologia é um “conjunto das idéias que constituem uma doutrina” ou “conjunto de idéias, crenças, doutrinas de uma sociedade ou classe social” (Minidicionário Larousse da Língua Portuguesa). O ateísmo não pode ser classificado como uma ideologia, e sim como um “posicionamento”. Ser ateu não compreende vínculo com qualquer linha de pensa-mento filosófico, ideológico e/ou político. Você pode ser ateu e ser socialista, bem como um capitalista; pode ser anarquista, ou mesmo autoritário; ser de Direita ou de Esquerda. Ser ateu não implica em materialismo, em qualquer de suas vertentes: materialismo ideológico e materialismo capitalista. O ateu é simplesmente alguém que não crê em um deus, ou deuses. Ao contrário do que muitos dizem o ateísmo não é uma “crença na não-existência de Deus”. Mas isto nos leva ao próximo ponto.

1.2 Ateísmo não é...

Ser ateu não compreende imoralidade, falta de ética, ou culto ao diabo; ser ateu não compreende em buscar provas da não-existência de um deus, ou deuses; ser ateu compreende em não crer em qualquer deus (ou deuses). Veja bem, o ateu é um não-crente, e não uma pessoa de fé, como muitos erroneamente associam. De fato, as pessoas confundem “crer na não-existência de Deus”, com “não crer na existência de Deus”.

Para ilustrar melhor essa idéia, tomemos como exemplo a possibilidade da existência da vida em outros planetas. A ciência busca, mas ainda não encontrou indícios de vida fora da Terra (até onde eu sei, perdoem-me caso minha afirmação esteja equivocada). Muitas pessoas acreditam que exista vida fora da Terra, outras não. As que não acreditam, de certa forma, crêem que não há vida fora da Terra. Claro que o termo “crença” aqui não está ligado à crença na metafísica sobrenatural, como ocorre na crença em Deus, mas é uma crença. Isso é uma crença na não-existência: a crença na não-existência da vida fora da Terra. Neste caso é perfeitamente cabível cunhar o termo “crença na não-existência”, pois a possibilidade da existência de vida fora da Terra é bastante plausível. Já o ateu, não crê na existência de Deus, o que é bem o contrário. O ateu não crê que exista um deus, ou deuses, por não ver qualquer lógica racional em favor da existência do mesmo.

Mas a pior de todas as crenças negativas atribuídas ao ateísmo, é a de que o ateísmo é uma ideologia que tem por objetivo comprovar que Deus não existe. Essa crença está totalmente equivocada, a começar pela classificação de “ideologia” creditada ao ateísmo – como já expliquei anteriormente, o ateísmo não pode ser classificado como tal. Mas o principal equívoco consta na própria idéia em si. O ateísmo não tem por objetivo a comprovação de que não exista um deus, ou vários deuses, nem nada disso! O ateu é apenas uma pessoa que não crê em um deus, ou deuses. Se tivesse o objetivo de comprovar que Deus não existe, seria classificado como ideologia – e seu ideal seria um mundo sem Deus, ou a comprovação de que Deus não existe. Porém – e torno deixar isso bem esclarecido – o ateísmo não é uma ideologia. Da mesma forma, o teísmo (assim como o deísmo, o politeísmo e o panteísmo) não é uma ideologia. O teísta é aquele que crê na existência de um deus, onisciente, onipotente e onipresente, que intervêm na vida das pessoas atendendo a preces e orações. A religião, como o Catolicismo, por exemplo, pode ser classificada como uma ideologia – uma ideologia que visa espalhar a suposta palavra de Deus (a Bíblia). O ateu apenas considera que os argumentos em favor da existência de Deus são ilógicos e incoerentes, portanto não crê que este exista.

Acredito ter expressado da maneira mais clara possível o que o ateísmo é, e o que o ateísmo não é. Espero ter conseguido desmistificar esse posicionamento. Àqueles que leram esta argumentação, e que classificavam erroneamente o ateísmo a qualquer uma dessas crendices equivocadas, espero que não tornem a cometer este terrível equívoco. A seguir pretendo explicar por que considero o ateísmo um posicionamento mais inteligente que o posicionamento teísta e o posicionamento agnóstico.


2. A INTELIGÊNCIA DO ATEÍSMO


Este será o ponto mais complicado e – obviamente – mais polêmico de toda a minha argumentação. Tentarei ser o mais imparcial possível, e o menos agressivo ou ofensivo possível. Não pretendo ridicularizar ou menosprezar a crença em Deus, e tentarei me expressar o mais respeitosamente possível.

Por que o ateísmo seria um posicionamento mais inteligente do que os demais posicionamentos? O que faz o ateísmo especial? O que faz do ateísmo um posi-cionamento mais inteligente do que o teísmo? O que faz do ateísmo um posicionamento mais inteligente do que o agnosticismo? Bem, irei começar por esta ultima pergunta, pois muitos consideram o agnosticismo semelhante ao ateísmo – uma crença que precisa ser derrubada logo de início para melhor prosseguir com minha argumentação.

2.1 Por que o ateísmo é um posicionamento mais inteligente do que o agnosticismo?

Como já deixei claro, há uma crença de que o agnosticismo e o ateísmo são semelhantes – uma crença que precisa ser derrubada. Dentro dessa errônea semelhança atribuída ao agnosticismo com relação ao ateísmo, a pergunta soaria mais estranha e sofreria uma leve mudança: se o agnosticismo é semelhante ao ateísmo, o que faz este melhor do que aquele? Primeiro, é justo que se leve em consideração que o ateísmo é extremamente oposto ao agnosticismo, da mesma maneira que o teísmo também o é. O ateísmo é ausência da crença em Deus, enquanto o que agnosticismo é um posicionamento neutro: nem contra, nem a favor (embora existam os agnósticos teístas e os agnósticos ateístas, dos quais falarei mais adiante – porém, ao que me parece, existem mais agnósticos ateístas do que agnósticos teístas, e talvez por esta razão o agnosticismo seja erroneamente relacionado ao ateísmo).

O agnosticismo é um posicionamento neutro, que não nega nem afirma a existência de Deus. Segundo os agnósticos não se pode afirmar que Deus existe, nem que afirmar que Deus não existe – este é um assunto que está muito além da razão humana; não se pode comprovar empírica e racionalmente a existência, assim como a inexistência, de um deus, ou deuses. Os que aceitam esta idéia e a defendem, estão convencidos – convencidos demais, na minha opinião – de que este é um argumento inabalável e inquestionável. Mas a verdade não é bem esta. Antes de prosseguir com minha argumentação, vamos considerar os três possíveis posicionamentos agnosticistas. O agnóstico teísta acredita na existência de um deus, porém assume a impossibilidade de provar que ele existe ou que ele não existe por meio da razão; você apenas pode crer, através da fé, que ele exista. O agnóstico ateísta apresenta a mesma ausência de crença em um deus que o ateu, porém com a plena convicção de que não se pode provar ele exista ou não; você apenas não crê que ele exista. E existe o agnóstico de facto, que não afirma nem nega, nem crê nem descrê – é o que eu defino por “em-cima-do-muro”. Se o agnosticismo deixa em aberto, considerando por iguais ambas as hipóteses, por que o ateísmo seria um posicionamento mais inteligente? Simples: porque se o teísmo assume que Deus existe, e o ateísmo assume um posicionamento radicalmente contrário – a não-existência de Deus –, é um tanto óbvio que se um está certo, o outro obrigatoriamente está errado. Não se pode estabelecer que ambos tenham exatamente a mesma probabilidade de estarem certos. Porque, afinal, ou Deus existe, ou ele não existe – e as evidências apontam para a não-existência. Neste contexto, o próprio teísmo seria um posicionamento mais inteligente do que agnosticismo, o que nos leva ao próximo item.

2.2 Por que o ateísmo é um posicionamento mais inteligente do que teísmo?

Demonstrei que tanto o ateísmo, quanto o teísmo, seriam posicionamentos mais inteligentes do que o agnosticismo, do ponto de vista de que ambos não compartilham o mesmo número de probabilidade de estarem corretos – para um estar correto, o outro, obrigatoriamente, tem que estar errado. E obviamente um deles está com a razão, mas questão é: qual deles estaria com a razão? É fato que o ônus da prova cabe aos teístas, que afirmam a existência de tal entidade de caráter espiritual. Porém, não há qualquer argumentação lógica e racional que defende a existência de Deus – o que já caracterizaria uma derrota dos teístas. Mas antes de me aprofundar na resposta desta questão, quero explicar por que escolhi o teísmo e não o deísmo, o politeísmo ou o panteísmo – ou mesmo por que não argumentarei sobre cada posicionamento. Primeiro porque o deísmo e o politeísmo são crenças mais raras – eu particularmente só conheço uma deísta, e ainda assim pendendo pro ateísmo, e não conheço nenhum politeísta –, e o panteísmo é praticamente, tomando emprestado o termo utilizado por Richard Dawkins, um “ateísmo enfeitado” – em geral, os panteístas consideram a energia e o cosmos, que são puramente científicos. O segundo é um motivo bastante óbvio, e uma conseqüência natural do primeiro – o teísmo é o posicionamento mais comum de um crente.

O ateísmo é a ausência da crença em um deus, ou deuses. Mas por que não crer em um deus, ou deuses? Qual o problema da crença em Deus? A resposta é simples, a falta de evidências em seu favor. O ateísmo consiste num posicionamento lógico, que não vê qualquer razão plausível para crer no ilógico – Deus. Por mais que os religiosos insistam em debater, não existe um único argumento plausível, lógico e racional em favor da existência de Deus. Porém, concordo com a definição de Richard Dawkins, que alega que não basta ser ateu por motivos lógicos e não buscar respostas para a origem da vida e do Universo. E, de fato, existem respostas plausíveis para a origem da vida e do Universo. Mas, independentemente da busca por uma resposta, recorrer a Deus é, no mínimo, buscar uma resposta fácil e reconfortante. Ao nos depararmos com a inquietante questão sobre o que originou a complexidade da vida que vemos hoje, o que há de lógico em responder que foi Deus quem criou? Ver a imensidão do Universo, os bilhões de galáxias, trilhões de trilhões de trilhões de estrelas (e mais trilhões de trilhões de trilhões de trilhões de planetas!), o que há de plausível e racional em afirmar que foi Deus quem criou tudo isso? Não é preciso estudar, nem tão pouco ser intelectual ou sequer ser alfabetizado para dar uma resposta dessas – basta saber falar. Aí está a inteligência do posicionamento ateísta! Recusar uma resposta simplista, implausível e ilógica como esta.

E existem aqueles teístas que alegam ter uma noção de Deus alheia à religião. Ora, de onde surgiu a noção de Deus? Antes das religiões monoteístas, não havia qualquer noção de um deus onipotente, onisciente e onipresente, e sim a noção de deuses e deusas. Júlio José Chiavenato, jornalista da cidade de Ribeirão Preto (cidade do interior do estado de São Paulo – a cidade que eu moro), escreve em seu livro Religião – da origem à ideologia, que a religião nasceu antes de Deus. O que é um fato comprovado historicamente! O homem inventou a religião, e a religião, conduzida por homens, inventou Deus! A inteligência do ateísmo consiste em rejeitar crer em algo criado por homens para controlar e manipular homens, como se de fato existe tal ser a ser adorado.


Não me preocupei em argumentar sobre qual seria uma teoria alternativa ao desígnio divino, uma vez que o real objetivo não é negar a existência de Deus, e sim, explicar o posicionamento ateísta. Espero ter sido claro e não ter ofendido qualquer pessoa e suas crenças. Defendo o direito de crença, mas igualmente defendo o direito à descrença. Como surgem muitos textos falando sobre Deus – ou questionando a integridade moral dos ateus – resolvi escrever uma argumentação que de fato esclarecesse o posicionamento ateísta.



Gustavo Sales Barbosa
Ribeirão Preto-SP, 2008

lord.ateu@gmail.com

domingo, 27 de julho de 2008

A história de Paul Raj

Não sei exatamente quando se deu este fato, pois os sites da web que publicaram esta história o fizeram em datas completamente diferentes (um em 2006, outro em 2007...), mas a história é real.

Essa é a história de Paul Raj, um jovem indiano que, como muitos em seu país, não podia ser tocado. Isso se deve ao fato de que Paul Raj é um “intocável”, segundo as crenças religiosas de 80% da população indiana. O Hinduísmo é uma religião que escraviza quase toda a população da Índia num sistema de castas, baseado em uma crença sem qualquer evidência em seu favor – baseada apenas na fé! A história é um pouco longa, mas vale a pena. Espero que você também fique chocado, como eu fiquei quando li essa história pela primeira vez, no ano passado quando não tinha conhecimento da existência do Hinduísmo. Boa leitura.

A INCRÍVEL HISTÓRIA... DO GAROTO QUE NÃO PODIA SER TOCADO

Paul Raj passou 21 anos sem ser abraçado por ninguém pela simples razão de ter nascido numa casta que, na Índia, representa a ESCÓRIA DA SOCIEDADE. Ele e sua família eram considerados impuros e ninguém ousava tocá-los

Paul Raj tinha 18 anos quando seu professor de sociologia entrou na sala de aula, desenhou uma pessoa na lousa e começou a explicar a estrutura de castas da sociedade na Índia - seu país de origem. A cabeça (Brahmim) representa os religiosos; os braços (Veishya) são os guerreiros e militares; os joelhos (Kshathriya) representam os nobres e os ricos; os pés (Shudra) são os fazendeiros e comerciantes. A poeira sob os pés não pertence às castas mas também tem um nome: são os párias, os chamados Intocáveis. Eles formam a escória da sociedade indiana. São considerados impuros e, por isso, ninguém ousa nem ao menos encostar neles. Foi só ao ouvir aquilo que Paul finalmente entendeu dezenas de episódios da sua vida.

Quando ele tinha 8 anos, encontrou seu irmão amarrado a uma árvore, com as pernas cobertas de formigas vermelhas. O garoto estava sendo punido por ter entrado no jardim de um vizinho. Paul estava com o pai, que se ajoelhou e, chorando, começou a pedir clemência. É difícil de acreditar, mas a reação do dono da casa foi bater no pai e manter o castigo. "A esposa do dono jogava açúcar na perna dele para atrair mais formigas e os filhos dela ficavam rindo em volta. Ficamos ali parados, vendo meu irmão ser comido vivo, sem fazer nada", diz Paul, que hoje tem 22 anos.

As regras que Paul deveria seguir eram inúmeras. Ele não podia beber água do rio, como faziam todas as pessoas da cidade (no lugar, devia andar muito até chegar num poço em que a água era barrenta e tinha um gosto estranho), não podia ir a lugares públicos e tinha que ter cuidado para que nem sua sombra atravessasse o caminho de uma pessoa de casta superior. Além disso, como todos os intocáveis, não podia ir à escola. Por isso, quando Paul tinha 11 anos, seus pais autorizaram um missionário francês a assinar um documento dizendo que ele era órfão. Paul foi enviado a um orfanato onde podia estudar.

A vida no orfanato não foi fácil. Além da distância dos pais, que ele não entendia muito bem, Paul era obrigado a dar duro na faxina dos banheiros e no preparo das refeições. Ele morava com outras 78 crianças e as condições do orfanato eram tão precárias que eles tinham que dividir um único lençol de casal entre 18 crianças todas as noites.

"Me lembro uma vez em que estava trabalhando na cozinha e vi uma barata caindo na panela do molho. Eu gritei e meu supervisor logo apareceu. Ele tirou a barata da panela com a mão, tampou e me mandou servir para as outras crianças sem contar nada sobre o ocorrido. Eu não disse nada porque todas as crianças que questionavam ou reclamavam eram expulsas do orfanato", conta Paul.

A cada 6 meses, ele conseguia encontrar seu pai por meia hora, e escondido. "Ele sempre me trazia um doce e eu nunca comia de uma vez. Ia de pouquinho em pouquinho, para ter a presença do meu pai por mais tempo", lembra sorrindo. Na única vez em que sua mãe foi visitá-lo, perto de um natal, o disciplinário acabou descobrindo e escorraçando-a dali. "Foi muito ruim ver minha mãe ser maltratada e não poder fazer nada", diz Paul. Para piorar, o disciplinário tomou das mãos de Paul a cesta com comida que sua mãe tinha levado e a distribui entre todos os alunos.

Mas Paul era um ótimo aluno e, aos 18, conseguiu entrar na faculdade de Direito - o que mudou sua vida completamente. A começar pela aula do professor de sociologia. Naquela mesma noite, Paul foi para a biblioteca e retirou mais de 40 livros sobre a sociedade de castas indianas. Leu cada um deles, tentando encontrar todas as respostas que passou a vida sem ter para quem perguntar. Na teoria, as castas são ilegais desde 1952. Mas na prática, é muito diferente. Principalmente em uma vila tão pequena quanto a que minha família mora."

Mas descobrir a origem do sofrimento da sua infância não tornou sua vida mais fácil. "Eu não podia contar minha origem a ninguém. E era horrível saber que eu não estava sendo sincero com meus amigos", diz. Paul se sentia tão angustiado que foi conversar com seu professor e contou sobre sua condição. O professor sabia que a maior parte dos alunos reagiria muito mal à notícia e aconselhou a Paul continuar mantendo aquilo como segredo. Mas Paul não agüentava mais mentir aos seus amigos e, numas férias escolares, convidou os 6 mais próximos para passarem uma semana na casa de seus pais. Alertou que não haveria quartos nem cama nem televisão, mas não explicou as razões para isso. "Eu sabia que ia ser uma experiência radical, mas todo mundo estava encarando a viagem como uma aventura. Eles não imaginavam o que é, na prática, uma família de sete pessoas morando numa casa de 3 cômodos. As mulheres dormem na cozinha. Os homens, na varanda - junto com os bichos, para guardar a casa. Não temos tomada nem nenhum aparelho eletrônico. O banheiro fico do lado de fora e não tem água encanada."

Quando chegaram à casa de Paul, os amigos não entendiam porque a família se recusava a freqüentar lugares públicos ou a conversar com as pessoas que passavam na rua, mas Paul desconversava quando eles perguntavam alguma coisa. Ele ainda não tinha certeza de que os amigos iriam aceitar a situação. "Só que, durante o jantar, minha mãe, que estava muito feliz com a presença deles, agradeceu a todos por serem meus amigos mesmo nossa família sendo de intocáveis. Na hora, senti que meu mundo estava desmoronando."

Logo que o jantar acabou, Paul abriu o jogo. Um dos amigos que estava lá, e era da casta dos Brahmins, não aceitou a situação. Foi embora ao amanhecer e tratou de contar para todos os alunos da sala que Paul era um intocável. Sua vida na faculdade nunca mais foi a mesma. Quando as aulas voltaram, todos haviam mudado com ele. "Onde quer que eu me sentasse, sempre haveria pelo menos três cadeiras vazias à minha volta. Foi muito duro e eu estava prestes a abandonar a faculdade. Mas foi aí que apareceu a Shilpa".

Shilpa era uma garota da sala de Paul. Um dia ela chegou para ele e disse que não concordava com essa historia de casta, e que ele podia contar com ela! Eles começaram a se conhecer, iam a lugares juntos, até que ele acabou se apaixonando. Um ano depois, no dia dos namorados, Paul comprou flores e foi falar com ela. "Quando a encontrei, comecei a gaguejar e quase fugi correndo, mas falei tudo o que queria." Shilpa contou que também estava apaixonada e disposta a enfrentar qualquer desafio para ficarem juntos.

A companhia de Shilpa fez com que Paul percebesse a importância de lutar contra um preconceito tão sem sentido. Por causa disso, passou a trabalhar como voluntário em diversos projetos e a participar de grupos de discussão sobre direitos humanos e discriminação racial. Se destacava em todos os grupos, mas ainda assim tinha que conviver com o preconceito contra o qual tanto lutava.

"Uma vez, meu colega brahmim, o mesmo que havia ido embora da minha casa quando descobriu minha origem, organizou uma festa e convidou todos os 67 alunos da sala, menos a mim. Todos estavam empolgados com a festa, mas quando Shilpa soube que eu não havia sido convidado, foi perguntar a ele por que, na frente de todos. Ele disse que não me convidou porque eu era um intocável e ela disse que, sendo assim, também não iria. Para minha surpresa, várias outras pessoas também decidiram, naquele momento, que não iriam à festa". E essa não foi a única vez que Shilpa se sacrificou por Paul.

No fim do último ano da faculdade, Paul estava sem dinheiro para pagar a mensalidade. Um dia antes dos exames, um dos professores entrou na sala dizendo na frente de todos que ele não poderia fazer os exames porque não havia pago completamente os estudos. "É lógico que todo mundo começou a rir e eu me senti muito humilhado", conta. No mesmo dia, à tarde, Shilpa chegou com o dinheiro na mão e sem seus brincos de ouro favoritos, um presente de aniversario de seus pais. "Eu não podia aceitar, nem acreditar no que ela estava fazendo. Ela me disse que se eu amasse ela, eu aceitaria e faria meus exames. Eu sabia que ela estava certa."

Paul formou-se em 2002. "Não consigo descrever como foi para os meus pais me ver chegando em casa, com um diploma na mão. Em toda minha vila, que tem 5 mil pessoas, apenas 7 foram para a faculdade. E eu era o primeiro intocável", conta. Paul diz que lembra de sua mãe correndo pelas ruas chamando todo mundo para ir à casa e do seu pai sentado na varanda, com um cigarro na mão, contando a todos a boa nova e mostrando o diploma como se fosse o mais precioso dos troféus.

Mas este estava longe de ser a última alegria que Paul daria a seus pais. Depois de formado, Paul foi convidado por uma organização internacional para fazer um estágio em Londres, na Inglaterra. Ele foi.

"Lembro como fiquei impressionado com o banheiro. Era como uma casa para mim: você pode guardar coisas dentro e ainda tem água à vontade", diz já mais acostumado ao ambiente e aos banhos - ele demorou uma semana para ter coragem de entrar debaixo do chuveiro. "No primeiro banho, não sabia nem como ligar o chuveiro. Depois, me senti tomando banho em uma cachoeira, mal podia acreditar que aquilo estava acontecendo dentro de uma casa."

Mas o dia mais emocionante da temporada londrina de Paul foi quando a chefe do programa de estágio o abraçou. Foi o primeiro abraço que Paul recebeu na vida, de alguém que não era da sua família (ele e Shilpa, por exemplo, apesar de estarem juntos há 6 anos, nunca se beijaram na boca, nem na bochecha). "Foi muito estranho. Eu nem sabia exatamente o que fazer e estava um pouco com medo. Mas quando percebi que estava sendo abraçado, não queria mais largar. Acabei caindo no choro."

Agora, Paul se prepara para voltar para casa. Ele e Shilpa estão noivos e querem, juntos, ajudar a mudar seu país. Durante o tempo na Inglaterra, Paul viajou para diversos países, conheceu muita gente empenhada em transformar os absurdos que ainda existem no mundo e se capacitou para levar um pouco desse conhecimento de volta à Índia. Mas, mesmo assim, ele tem medo de não conseguir mudar uma realidade que dura há tanto tempo. "Tenho medo de fracassar, de não conseguir fazer com que meu povo entenda que precisa lutar por seus direitos. Se eles são desprezíveis demais até mesmo para serem tocados, como vão brigar para serem ouvidos?"

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Cristovam Buarque


A INTERNACIONALIZAÇÃO DO MUNDO

Cristovam Buarque

"Durante debate em uma Universidade, nos Estados Unidos, fui questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia. O jovem americano introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. Foi a primeira vez que um debatedor determinou a ótica humanista como o ponto de partida para uma resposta minha.

De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso.

Respondi que, como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, podia imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a Humanidade.

Se a Amazônia, sob uma ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço. Os ricos do mundo, no direito de queimar esse imenso patrimônio da Humanidade.

Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.

Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.

Durante o encontro em que recebi a pergunta, as Nações Unidas reuniam o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu disse que Nova York, como sede das Nações Unidas, deveria ser internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a Humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza especifica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.

Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.

Nos seus debates, os atuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o pais onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazônia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar; que morram quando deveriam viver.

Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa."

O fato que deu origem a este artigo, ocorreu em Nova York, nas salas de convenções do Hotel Hilton, durante o encontro do State of the World Forum, em Setembro de 2000 foi publicado por Cristovam Buarque no Globo e no Correio Braziliense, logo depois.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Auto-ajuda: o segredo do maior fenômeno literário da atualidade

1. AUTO-AJUDA: ORIGEM E MERCADO

Leiam mais livros!", eis a clássica indicação de nossos professores(as), em especial, professores(as) de português. De fato, ler é muito bom! Além de ampliar nosso vocabulário, ajudando a nos familiarizarmos com palavras pouco usadas no dia-a-dia, os livros podem conter informações que nos ajudam na vida quotidiana. Livros de filosofia é um exemplo que merece grande destaque neste quesito. Frutos de longas reflexões, e estudos de vidas inteiras, estes livros são de uma preciosidade indiscutível! Porém, são obviamente voltados para um público restrito. Não que este seja o objetivo, mas sim uma conseqüência natural da ignorância massiva. Com intuito de nos ajudar a enfrentar a vida quotidiana e os constantes problemas que passamos ao longo de nossas vidas, surgiram os livros de auto-ajuda. Existem alguns que, de fato, passam uma mensagem interessante, produtiva, proveitosa para nossas vidas! Um exemplo é a obra Inteligência Aplicada do médico brasileiro Dr. Lair Ribeiro. Mas, a maioria das obras deste gênero literário, tende a vender o individualismo, falsa-felicidade, fórmulas ineficazes de sucesso, etc, etc, etc... E é justamente essa idéia que irei defender neste artigo.

1.1. A origem dos livros de auto-ajuda

Em 1859, publicado pelo escritor e reformador britânico Samuel Smiles, Auto-Ajuda foi o livro que deu nome ao gênero. A frase de abertura do livro é "O Céu ajuda aqueles que ajudam a si mesmos" (nítida variação de "Deus ajuda aqueles que ajudam a si mesmos"), máxima usada constantemente por Benjamin Franklin em sua obra Almanaque do Pobre Ricardo (Poor Richard's Alamanc). Smiles ficou conhecido por escrever livros que exaltam a importância da auto-ajuda.

1.2. O mercado da auto-ajuda

Segundo a CBL - Câmara Brasileira do Livro - em 2000, o segmento das obras de auto-ajuda cresceu 7%. Entre 1997 e 1998 as vendas de obras de auto-ajuda dobraram literalmente (passando de 1,1 milhão, para 2,1 milhões de cópias vendias). Porém, em 1994, o número de obras deste gênero literário, não chegava a 500 mil exemplares (não ultrapassavam 411,9 mil exemplares).

"O instituto de pesquisas Marketdata estima que o mercado da "auto-ajuda" movimentou cerca de US$8.5 bilhões em 2003. Esses negócios incluem comerciais, catálogos, institutos holísticos, livros, fitas de áudio, palestras motivacionais, o mercado de treinamento pessoal, perda de peso e programas de controle do stress. Eles projetaram que o tamanho total desse mercado pode alcançar mais de US$11 bilhões em 2008".

(Fonte: Wikipedia)

É incrível como o mercado que envolve o universo da auto-ajuda tem faturado tantos milhões! Clair Maria Miller, há 5 anos proprietária da Livraria e Papelaria Renascer, conta que os livros que estão vendendo mais no momento são os livros de auto-ajuda. "Está fora do normal nos últimos tempos. Acho que nunca teve tanta procura por esse tipo de livro. Os livros de ficção e não-ficção, além das biografias também são bastante procurados, mas os que vendem mais são mesmo os de auto-ajuda", revela Clair.

Rhonda Byrne, escritora australiana, publicou a obra The Secret - O Segredo, o maior fenômeno literário do segmento da auto-ajuda. Nos Estados Unidos foram mais de 6 milhões de cópias vendidas, enquanto aqui no Brasil, são cerca de 250 mil cópias vendidas. Antes de se tornar um best seller a obra nasceu como um documentário, de mesmo nome - que já vendeu 1,7 milhão de cópias em DVD - criado pela própria Rhonda. Estas marcas impressionantes renderam milhões e milhões ao cofre da australiana - além de ter sido considerada uma das 100 pessoas mais influentes em 2007, pela revista estadunidense Time [é como se fosse uma revista Veja dos Estados Unidos].

2. FENÔMENO SOCIAL E PSICOLÓGICO: A INFLUÊNCIA DOS LIVROS DE AUTO-AJUDA

Não é assim tão surpreendente ver tantas obras literárias do segmento de auto-ajuda sendo vendidos, e que esta venda tenha crescido, ano após ano, quando se analisa este fenômeno do ponto de vista psicológico-social. É fato consumado que as pessoas tendem a buscar soluções rápidas e confortadoras para seus problemas. Receitas da felicidade, fórmulas do sucesso! Quando tem problemas com relacionamento amoroso, tendem a buscar por livros que lhes ensinem a suportar a dor da perda. Se tiver problemas financeiros, buscam livros com soluções para estes problemas. Falta de auto-estima, de autoconfiança buscará formas sentir-se confortado com sua atual condição física e emocional. Cientes dessa necessidade da massa ignorante, os autores de obras de auto-ajuda faturam milhões e milhões anualmente. Particularmente, considero isso um crime! Na incapacidade de escrever uma obra intelectualmente proveitosa e produtiva, esses sanguessugas tiram proveito da ignorância da massa, contribuindo para a alienação oferecendo receitas confortadoras e de fácil assimilação. Muitas vezes, relatando supostas experiências pessoais, depoimentos de pessoas cujas vidas mudaram para melhor depois de ler tal obra. É o caso das obras literárias The Secret – O Segredo e What the Bleep do We Know!? (algo comoO que diabos nós sabemos?” ou “Quem somos nós?”). Ambos começaram como documentários que estão recheados de depoimentos e comentários de pessoas mudaram suas vidas para melhor, e supostos especialistas no assunto. E em ambos há dois pontos em comum: 1º) a idéia de que você pode influenciar tudo à sua volta apenas com seu pensamento; 2º) são baseados em pseudociência, fazendo uso da física quântica, alegando que esta evidencia suas teorias.

2.1. O que é pseudociência?

Pseudociência é qualquer tipo de informação que se diz ser baseada em fatos científicos, ou de alto padrão de conhecimento, mas que não resulta do método científico.

Motivações para a defesa ou promoção de uma pseudociência variam de um simples desconhecimento acerca da natureza da ciência ou do método científico, a uma estratégia deliberada para obter benefícios financeiros, filosóficos ou de outra natureza. Algumas pessoas consideram algumas ou todas as formas de pseudociências como um entretenimento sem riscos. Outros, como Richard Dawkins, consideram todas as formas de pseudociência perigosas, independentemente destas resultarem ou não em danos imediatos para os seus seguidores.

(Fonte: Wikipedia)

No caso das obras The Secret – O Segredo e What the Bleep do We Know?!, a pseudociência entra com a alegação de que a física quântica comprova as teorias de que o pensamento pode influenciar o mundo à nossa volta. Mais adiante comentarei mais a fundo sobre a veracidade de tais fatos, mas, por ora, vou me deter na questão da ciência por trás das idéias a serem vendidas em tais obras.

De fato, há uma idéia a ser vendida nessas obras, e pode-se dizer que, infelizmente, o fizeram com grande sucesso. Mas para toda venda de uma idéia, principalmente quando é bem sucedida, há uma estratégia por trás, um “marketing”. Ora, nada melhor para dar consistência a uma idéia, dar crédito, que o respaldo da ciência (chega a ser engraçado ver que, as mesmas pessoas que ignoram a ciência, fazem uso dela, dão crédito a ela, quando supostamente evidencia uma opinião pessoal).

Em The Secret – O Segredo, Rhonda Byrne escreveu:

Em termos simples: toda energia vibra numa freqüência; por ser energia, você também vibra numa freqüência, e o que determina sua freqüência de vibração a qualquer momento dado é o que você pensa e sente. Todas as coisas que você deseja são formadas de energia e elas também estão vibrando. Tudo é energia. Eis o fator deslumbrante: quando você pensa no que deseja e emite aquela freqüência faz vibrar na mesma freqüência a energia daquilo que deseja e o traz para você! Ao se concentrar no que deseja, você muda a vibração dos átomos daquela coisa, fazendo-a vibrar para você. A razão de você ser a mais poderosa torre de transmissão do Universo é ter recebido o poder de concentrar sua energia por meio de seus pensamentos e alterar as vibrações daquilo em que se concentra, o que então atrai o que deseja magneticamente para você.

O que é mais incrivelmente gritante nisso, é a facilidade com que ela afirma algo tão absurdo! Sem qualquer pudor ou acanhamento, ela escreve com (suposta) convicção algo sem qualquer embasamento, e, o que é mais controverso, fazendo uso da (pseudo) ciência para dar crédito aos seus escritos.

No documentário What the Bleep do We Know!?, há um momento em que a personagem principal do filme, Amanda (uma fotógrafa surda) assiste a uma apresentação onde são exibidas imagens supostamente fotografadas por um microscópio de campo escuro (essas fotos são nitidamente fotos de cristais de gelo editadas por computador). Há uma mulher fazendo a apresentação das fotos, explicando que uma imagem é da água da represa Fujiwara pura, e a outra é da mesma água depois de ser benzida por um monge Zen budista (http://www.youtube.com/watch?v=BHDC0jz1A98). Estas fotos teriam o intuito de demonstrar como nosso pensamento pode alterar a estrutura molecular da água. Mais adiante ela afirma: “E é realmente fascinante se pensar que 90% dos nossos corpos é formado de água.” De fato, é fascinante. Tamanha ignorância só pode ser, no mínimo, fascinante. Afinal, o corpo de um recém-nascidos é composto de cerca de 78%, as crianças de 1 ano de idade têm cerca de 65%, homens adultos têm cerca de 60%, e mulheres adultas cerca de 55%.

2.2. O segredo de The Secret – O Segredo

Agora, vou falar um pouco mais sobre a obra The Secret – O Segredo, da australiana Rhonda Byrne. Este livro é demasiado fraco em vários aspectos (não comentarei todos, apenas o que for necessário), a começar pelo que já foi apresentado anteriormente: a pseudociência.

Mas como pode um livro assim vender tanto? Como citei momentos antes, é um fato consumado que as pessoas tendem a buscar soluções rápidas, práticas e reconfortantes. De fato, quando passam por algum problema, buscam conforto, e não solução, para este problema. Ou, se for o caso, soluções práticas, de pouco (ou quase nenhum) esforço. Neste quesito The Secret – O Segredo deixa todos os seus concorrentes do universo da auto-ajuda para trás! Por que escrever um livro sobre soluções no amor (?); por que escrever um livro sobre como superar seus problemas com a auto-estima (?); por que escrever um livro ajudando as pessoas a terem confiança em si mesmas (?); é muito mais prático escrever um livro que possa oferecer solução simples e prática para todos esses problemas de uma só vez! E o nome dessa praticidade cômoda é: Lei da Atração.

De fato, desde que o livro The Secret – O Segredo foi lançado, não se fala em outra coisa. Apenas na tal Lei da Atração. Segundo esta lei, você pode atrair tudo que você quiser apenas com a força de seus pensamentos! E mais, você pode mudar o mundo com a força do seu pensamento. Basta que você se concentre e peça “da forma correta”. De fato, a grandiosa Rhonda Byrne sabe bem como se deve fazer o pedido, pois até mesmo ensina como fazê-lo:

Quando você concentra seus pensamentos em algo que deseja, e se mantém concentrado, naquele momento você está pedindo o que deseja com o poder mais forte do Universo. A lei da atração não computa ‘não’, ‘nem’ ou ‘nunca’, ou nenhuma outra palavra de negação. Quando você fala negativamente, isto é o que a lei da atração recebe.

‘Eu não quero derramar coisa alguma nesta roupa.’
‘Eu quero derramar alguma coisa nesta roupa e em outras coisas.’

‘Eu não quero um corte de cabelo feio.’
‘Eu quero cortes de cabelo feios.’

‘Eu não quero me atrasar.’
‘Eu quero atrasos.’

‘Eu não quero que aquela pessoa seja rude comigo.’
‘Eu quero que aquela e mais pessoas sejam rudes comigo.’

‘Eu não quero que o restaurante ceda nossa mesa a outros.’
‘Eu quero que os restaurantes cedam nossas mesas a outros.’

‘Eu não quero que estes sapatos machuquem.’
‘Eu quero que os sapatos machuquem.’

‘Eu não consigo dar conta de todo este trabalho.’
‘Eu quero mais trabalho do que posso dar conta.’

‘Eu não quero pegar um resfriado.’
’Eu quero o resfriado e quero pegar mais doenças.’

‘Eu não quero discutir.’
‘Eu quero mais discussão.’

‘Não fale comigo desse jeito.’
‘Eu quero que você e outras pessoas falem comigo desse jeito.’

A lei da atração lhe dá aquilo em que você pensa — e ponto final!

Rhonda Byrne deve ser uma pessoa demasiadamente especial, pois, ao que fica subentendido neste trecho, as forças do universo se materializaram diante dela explicando com interpretam as frases das pessoas. Mas ela sabe muito bem que as pessoas que buscam conforto em obras do segmento da auto-ajuda não se apegam aos detalhes. Este trecho, além de ter seus detalhes ignorados, ainda é interpretado com total seriedade pelos leitores da obra.

Quando expliquei o que é pseudociência, citei um trecho desta obra e gostaria de convocá-lo novamente. Neste trecho, fala-se sobre os átomos. Com a força do nosso pensamento, podemos fazê-los vibrar para nós atraindo-o. Somos uma torre de transmissão poderosa, pois podemos concentrar nossos pensamentos em qualquer coisa que quisermos. A questão aqui são os átomos. Ela escreve sobre os átomos como se tivesse algum conhecimento de física quântica. De fato, ela não tem nenhum, pois, se tivesse, não escreveria algo tão gritantemente absurdo! Um dos maiores desafios da física quântica são os átomos. Pouco se sabe sobre eles, e esse pouco é instável, indefinível, incerto. É demasiado complicado estudar os átomos, pois nunca se sabe como vão se comportar. Segundo o Princípio da Incerteza de Werner Heisenberg, o observador interfere diretamente com o objeto observado (o átomo). Quando se tenta prever a trajetória de um elétron, torna-se impossível prever onde ele vai parar; quando se tenta prever onde vai parar, torna-se impossível prever sua trajetória. Não pretendo entrar em detalhes muito científicos, mas é necessário deixar esclarecido que mesmo os físicos quânticos sabem muito pouco sobre os átomos, e que os estudos com átomos são muito imprecisos. Em outras palavras, a explicação de Rhonda Byrne sobre a Lei da Atração, em sua vã tentativa de fazer uso dos átomos para comprová-la, é totalmente anti-científica.

Em suma, o segredo de todo o sucesso por trás da obra de Rhonda, é a criação de uma única teoria que se propõem a resolver todos os possíveis problemas que surgem ao longo de nossas vidas.

2.3. What the Bleep do We Know!?


Agora, falarei resumidamente sobre o documentário What the Bleep do We Know!?. Não há muito que dizer sobre este, pois segue, de certa forma o mesmo caminho de The Secret – O Secredo (exceto pelo fato de ser anterior a este).

What the Bleep Do We Know!? ou What the #$*! Do We Know!? (O que diabos nós sabemos?) — em cultura lusófona Quem somos nós? – filme controverso de 2004, combina documentário entrevista e uma narrativa ficcional para conectar a ciência à espiritualidade, baseado nos ensinamentos de JZ Knight/Ramtha, de quem os três diretores são devotos.

Os críticos oferecem misturadas opiniões [sobre o documentário What the Bleep do We Know!?], como visto nos sítios especializados, entre os quais o Rotten Tomatoes (versão americana do site www.omelete.com.br ), ou na crítica de Dave Kehr no New York Times, onde ele dá suas opiniões sobre o filme: aceita "a transição da mecânica quântica para a terapia cognitiva" como "plausível", mas considera que passar para o passo subseqüente da terapia cognitiva para as crenças espirituais não tem base. Subseqüentemente, pessoas que falavam sobre partículas subatômicas aludem a universos alternativos e forças cósmicas, que podem ser aproveitados no interesse de fazer as sensações de bem estar da Srta. Matlin.

(Fonte: Wikiédia)

Assim como a obra da australiana Rhonda Byrne, What the Bleep do We Know!? também se baseia em pseudociência; mas este vai ainda mais longe, chegando a mistificar a física quântica, alegando que esta é uma física de possibilidades. Por ser uma física de incertezas, de fato, a física quântica está aberta a muitas possibilidades; porém, o fato de haver muitas possibilidades não implica em “tudo é possível”. A chamada New Science (Nova Ciência), tenta unir misticismo com ciência, interpretando erroneamente as possibilidades abertas pela física quântica. O documentário “tem recebido críticas de toda a comunidade científica. Físicos, em particular, reclamam que o filme de forma grosseira deturpa o significado de diversos princípios da mecânica quântica, e se fundamenta na pseudociência” (fonte: Wikipedia).

Neste documentário, são discutidos assuntos referentes à neurologia, mecânica quântica psicologia, epistemologia, ontologia e espiritualidade. O filme apresenta várias entrevistas com supostos especialistas nestes assuntos; no livro baseado no documentário, há trechos das palavras destes “especialistas”, e com um “Ph.D” na frente do nome (exemplo: Gustavo Sales Barbosa, Ph.D), como se o fato de ele possuir um doutorado significa que ele sabe o que está dizendo; que está é uma verdade que você, como leigo, não possa questionar (além do fator psicológico, de que as pessoas tendem a ficar impressionadas com títulos acadêmicos, ao invés de analisar a veracidade das palavras do argumentador).

Existem, também, como já era de esperar, erros terríveis neste documentário (o que já demonstra que estes “especialistas” nada sabem sobre ciência). Um destes erros é o (já mencionado neste artigo) momento em que a personagem Amanda, está assistindo a uma apresentação de fotografias de um microscópio de campo escuro das moléculas da água, e a mulher que está fazendo a apresentação dessas fotos diz que nosso corpo é composto de 90% de água. Outra falha vem logo a seguir:

O filme também relata a história sobre os povos indígenas das Américas serem incapazes de ver as caravelas de Cristóvão Colombo. Entretanto, não há menção a isto nos relatos sobre tais viagens, e as tradições orais dos índios americanos se perderam nos 150 anos que se seguiram à descoberta, sob domínio espanhol. Nenhuma das pessoas que Colombo encontrou primeiro — os Arawaks — não tem qualquer descendente comprovado até os tempos modernos, então torna-se cientificamente impossível saber qual foi a experiência vivida pelas mesmas.

A história no filme pode ser uma versão confusa ou distorcida do incidente descrito na série Cosmos, do astrônomo norte-americano Carl Sagan (no Episódio 13), o qual descreve tradição oral como os Tlingit encontraram a expedição de La Pérouse nos anos 1780. O povo Tlingit teve medo no início de olhar diretamente os navios, porque imaginavam que a nave e suas velas fossem manifestações do 'Corvo' (ver mitologia), o qual poderia transformá-los em pedra. Um dos membros da tribo, um velho quase cego, teria decidido pegar uma canoa e remar até perto, e finalmente teria compreendido as embarcações e suas tripulações como elas eram.”

(Fonte: Wikipedia)

Neste trecho do documentário, em que é citada esta experiência dos índios, é alegado que nossos olhos são programados para ver apenas aquilo a que estamos acostumados. Gostaria de saber a explicação que eles teriam sobre uma criança, que ainda não sabe praticamente nada, ver tudo que os adultos vêem, e, por não terem conhecimento sobre aquilo que estão vendo, nos fazem perguntas. Se isso fosse mesmo verdade, as crianças não seriam capazes de ver coisa alguma, pois não tem conhecimento sobre nada daquilo que os cerca.

Para finalizar o artigo, fico com as palavras de Evangelista de Morais, professor de física que foi convidado a fazer comentários sobre este documentário em um cineclube (mas serve perfeitamente para os apologistas de The Secret – O Segredo):

Há um conselho que eu poderia dar, pra começo de história, é que se forem a uma livraria e encontrarem algum livro sobre a cura quântica, a relação entre o comportamento humano e a física quântica, as coisas místicas e a mecânica quântica, invés de comprar este livro usem o mesmo dinheiro para comprar um CD de música, ou então uma garrafa de vinho. Porque eu posso garantir que, provavelmente, ou quase que certamente, este livro é completamente inútil [...] Então, esse tipo de coisa está realmente no limite entre o que é ciência, e o que é pseudociência. Então, eu acho que se tiver alguma coisa que agente pode tirar do filme, é que você deve continuar cada vez mais cético com esse tipo de coisa.

domingo, 20 de abril de 2008

Nietzsche e o sofrimento

Sofrimento, o que é o sofrimento? O que significa sofrer? Para muitos, nos dias de hoje, o sofrimento é uma coisa ruim, que deveria ser banida de nossas vidas; algo que é proporcionado apenas a alguns poucos fracos. Muitos filósofos tentaram reduzir nosso sofrimento, oferecendo conselhos de como amenizar nossa dor, confortando-nos; e religiões, como o cristianismo, que se propõem a oferecer consolo aos seus fiéis. O sofrimento é visto como um sentimento que causa dor, desolação, angústia, falta de autoconfiança. Mas, quem disse que esses sentimentos são necessariamente ruins? Segundo o filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900), sofrer significa muito mais do que isso. O sofrimento, na filosofia nietzscheana, ao contrário da opinião popular, é algo vantajoso na vida. Sem sofrimento não há vitória, não há sucesso. Embora muitos imaginem o sucesso como fácil e natural para algumas pessoas, na visão de Nietzsche não existe um caminho reto até o topo. "Não falem de dons ou talentos inatos.” ele escreveu. “Podemos listar muitas figuras importantes que não tinham talento, mas conquistaram seu mérito e transformaram-se em gênios. Elas fizeram isso superando dificuldades."

Como diz a famosa frase de Nietzsche: “Aquilo que não causa minha morte, torna-me mais forte”. Esta citação resume bem a visão de Nietzsche sobre o sofrimento. Mas, não basta sofrer, pois, se assim fosse, todos seríamos felizes; todos passam por dificuldades na vida e nem por isso são felizes, ou deixam de passar por grandes dificuldades. A questão é como encaramos o sofrimento, as dificuldades, os fracassos. Para definir metaforicamente sua visão, Nietzsche diz que devemos nos espelhar nos jardineiros. Um jardineiro depara-se com plantas cujas raízes são horríveis, monstruosas, mas o resultado que se obtém delas é sublime! Não há uma bela flor que não tenha uma raiz horrorosa. E é assim que devemos nos comportar, transformando a dor e o sofrimento (a raiz horrorosa), em algo belo (a flor), e proveitoso para nossas vidas.

Nietzsche não se dedicou apenas à reflexão das melhores reações aos problemas, mas também refletiu sobre quais seriam as mais desastrosas. E concluiu que uma das piores era afogar as mágoas. Era contra qualquer forma de consolação e conforto, pois isto amenizaria o efeito positivo da superação. Por conta disso, tinha horror a bebidas alcoólicas. Ele diz: "Os espíritos mais elevados devem se abster da bebida. A água basta". [O termo “espírito” nada tem a ver com a espiritualidade religiosa; por “espíritos mais elevados” compreendem-se pessoas intelectuais.] Criticava também as religiões, em especial o cristianismo; afirmava que ir à igreja era o mesmo que ir ao bar. Existem nítidas diferenças entre uma igreja e um bar, mas o que Nietzsche quer demonstrar é que o tipo de consolo oferecido em ambos é o mesmo. Ao entrar numa igreja, você pode sair sentindo-se melhor, mas sua situação continua a mesma, além de amenizar o, já citado, efeito positivo da superação de uma dificuldade. A religião cristã chega a tal ponto que desdenha o desejo, fazendo deste algo ruim e que deve ser evitado. Nietzsche viveu com pouquíssimo dinheiro, além de ter de superar dificuldades, tanto físicas quanto mentais, ao longo de sua vida. Mas não tinha o mesmo comportamento que criticava nos religiosos. Ao contrário, desejava uma saúde melhor, e melhores condições financeiras. E era justamente essa sinceridade que esperava deles.

Segundo a filosofia nietzscheana, as dificuldades que passamos constantemente, nos dão pistas do que pode estar errado em nossas vidas, se observados e refletidos de modo adequado, e podem apontar o melhor caminho para torná-la melhor.

Como demonstrei neste artigo, Nietzsche analisou o sofrimento como um todo, não apenas refletindo sobre as melhores reações, mas também as piores. Por este motivo, pode-se dizer que Nietzsche tenha sido o único filósofo a se debruçar seriamente sobre o assunto, refletindo sobre como devemos encarar nossos fracassos e dificuldades, ao invés de apenas nos fornecer uma filosofia consoladora.