Friedrich Nietzsche

“O esforço dos filósofos tende a compreender o que os contemporâneos secontentam em viver.”

Sigmund Freud

“Não, nossa ciência não é uma ilusão. Ilusão seria imaginar que aquilo que a ciência não nos pode dar, podemos conseguir em outro lugar.”

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

A inteligência do posicionamento ateísta

INTRODUÇÃO


Este não é um texto como outro qualquer. Não é apenas mais uma argumentação em defesa do ateísmo, ou atacando a crença em um deus, ou deuses. Muito mais do que defender o ateísmo, este é mais um que descreve a luta contra o preconceito. O ideal deste texto é esclarecer aos que tem dúvidas acerca do assunto – ateísmo – ou que desconhece, ou, em última análise, os que classificam esta “ideologia” de forma pejorativa e negativa; a idéia é apresentar uma argumentação visando o esclarecimento a cerca da ausência da crença em um deus, ou deuses. Aliás, o próprio termo “ideologia” não se encaixa ao ateísmo, pois este é mais do que uma ideologia, mas isto será bem explicado ao longo da argumentação que preparei.


1. O QUE O ATEÍSMO É, E O QUE O ATEÍSMO NÃO É


O principal objetivo desse texto é apontar as razões intelectuais do ateísmo. Porém, ser ateu não implica necessariamente em intelectualidade – existem ateus que apenas não crêem e pronto; não vêem razão ou necessidade de uma explicação melhor para a origem da vida e do Universo. Para atingir o objetivo proposto, é necessário explicar o que de fato o ateísmo é, e o que o ateísmo não é. Isso é um pouco mais complicado do que parece, pois há um leque de classificações negativas atribuídas ao ateísmo. Classificações completamente equivocadas e que pretendo desmontar a seguir.

1.1 Ateísmo é...

Há uma série de “crenças” equivocadas a cerca do ateísmo. Minha intenção, neste momento é desmistificar esta “ideologia”, acabando com as falsas idéias que existem a cerca deste posicionamento. A única maneira de atingir este objetivo é explicar o que de fato o ateísmo não é. Mas antes disso, é necessário explicar o que o ateísmo é. Não se pode começar pelo fim; é deveras importante compreender o ateísmo antes de desmon-tar as falsas idéias que são alimentadas sobre este.

O termo ateu vem do prefixo grego a-, significando “ausência”, e do radical “teu”, derivado de theós, que significa “deus”. Ateu significa, literalmente, aquele que não tem deus (ou deuses), que não possui crença em um deus (ou vários deuses). É muito importante que isso fique bem evidenciado e que se tenha sempre isto em mente durante toda a leitura: “[aquele] que não possui crença em um deus (ou vários deuses)”.

Ser ateu é mais que uma ideologia ou uma filosofia; ser ateu não compreende qualquer linha de pensamento filosófico, ideológico e/ou político. Uma ideologia é um “conjunto das idéias que constituem uma doutrina” ou “conjunto de idéias, crenças, doutrinas de uma sociedade ou classe social” (Minidicionário Larousse da Língua Portuguesa). O ateísmo não pode ser classificado como uma ideologia, e sim como um “posicionamento”. Ser ateu não compreende vínculo com qualquer linha de pensa-mento filosófico, ideológico e/ou político. Você pode ser ateu e ser socialista, bem como um capitalista; pode ser anarquista, ou mesmo autoritário; ser de Direita ou de Esquerda. Ser ateu não implica em materialismo, em qualquer de suas vertentes: materialismo ideológico e materialismo capitalista. O ateu é simplesmente alguém que não crê em um deus, ou deuses. Ao contrário do que muitos dizem o ateísmo não é uma “crença na não-existência de Deus”. Mas isto nos leva ao próximo ponto.

1.2 Ateísmo não é...

Ser ateu não compreende imoralidade, falta de ética, ou culto ao diabo; ser ateu não compreende em buscar provas da não-existência de um deus, ou deuses; ser ateu compreende em não crer em qualquer deus (ou deuses). Veja bem, o ateu é um não-crente, e não uma pessoa de fé, como muitos erroneamente associam. De fato, as pessoas confundem “crer na não-existência de Deus”, com “não crer na existência de Deus”.

Para ilustrar melhor essa idéia, tomemos como exemplo a possibilidade da existência da vida em outros planetas. A ciência busca, mas ainda não encontrou indícios de vida fora da Terra (até onde eu sei, perdoem-me caso minha afirmação esteja equivocada). Muitas pessoas acreditam que exista vida fora da Terra, outras não. As que não acreditam, de certa forma, crêem que não há vida fora da Terra. Claro que o termo “crença” aqui não está ligado à crença na metafísica sobrenatural, como ocorre na crença em Deus, mas é uma crença. Isso é uma crença na não-existência: a crença na não-existência da vida fora da Terra. Neste caso é perfeitamente cabível cunhar o termo “crença na não-existência”, pois a possibilidade da existência de vida fora da Terra é bastante plausível. Já o ateu, não crê na existência de Deus, o que é bem o contrário. O ateu não crê que exista um deus, ou deuses, por não ver qualquer lógica racional em favor da existência do mesmo.

Mas a pior de todas as crenças negativas atribuídas ao ateísmo, é a de que o ateísmo é uma ideologia que tem por objetivo comprovar que Deus não existe. Essa crença está totalmente equivocada, a começar pela classificação de “ideologia” creditada ao ateísmo – como já expliquei anteriormente, o ateísmo não pode ser classificado como tal. Mas o principal equívoco consta na própria idéia em si. O ateísmo não tem por objetivo a comprovação de que não exista um deus, ou vários deuses, nem nada disso! O ateu é apenas uma pessoa que não crê em um deus, ou deuses. Se tivesse o objetivo de comprovar que Deus não existe, seria classificado como ideologia – e seu ideal seria um mundo sem Deus, ou a comprovação de que Deus não existe. Porém – e torno deixar isso bem esclarecido – o ateísmo não é uma ideologia. Da mesma forma, o teísmo (assim como o deísmo, o politeísmo e o panteísmo) não é uma ideologia. O teísta é aquele que crê na existência de um deus, onisciente, onipotente e onipresente, que intervêm na vida das pessoas atendendo a preces e orações. A religião, como o Catolicismo, por exemplo, pode ser classificada como uma ideologia – uma ideologia que visa espalhar a suposta palavra de Deus (a Bíblia). O ateu apenas considera que os argumentos em favor da existência de Deus são ilógicos e incoerentes, portanto não crê que este exista.

Acredito ter expressado da maneira mais clara possível o que o ateísmo é, e o que o ateísmo não é. Espero ter conseguido desmistificar esse posicionamento. Àqueles que leram esta argumentação, e que classificavam erroneamente o ateísmo a qualquer uma dessas crendices equivocadas, espero que não tornem a cometer este terrível equívoco. A seguir pretendo explicar por que considero o ateísmo um posicionamento mais inteligente que o posicionamento teísta e o posicionamento agnóstico.


2. A INTELIGÊNCIA DO ATEÍSMO


Este será o ponto mais complicado e – obviamente – mais polêmico de toda a minha argumentação. Tentarei ser o mais imparcial possível, e o menos agressivo ou ofensivo possível. Não pretendo ridicularizar ou menosprezar a crença em Deus, e tentarei me expressar o mais respeitosamente possível.

Por que o ateísmo seria um posicionamento mais inteligente do que os demais posicionamentos? O que faz o ateísmo especial? O que faz do ateísmo um posi-cionamento mais inteligente do que o teísmo? O que faz do ateísmo um posicionamento mais inteligente do que o agnosticismo? Bem, irei começar por esta ultima pergunta, pois muitos consideram o agnosticismo semelhante ao ateísmo – uma crença que precisa ser derrubada logo de início para melhor prosseguir com minha argumentação.

2.1 Por que o ateísmo é um posicionamento mais inteligente do que o agnosticismo?

Como já deixei claro, há uma crença de que o agnosticismo e o ateísmo são semelhantes – uma crença que precisa ser derrubada. Dentro dessa errônea semelhança atribuída ao agnosticismo com relação ao ateísmo, a pergunta soaria mais estranha e sofreria uma leve mudança: se o agnosticismo é semelhante ao ateísmo, o que faz este melhor do que aquele? Primeiro, é justo que se leve em consideração que o ateísmo é extremamente oposto ao agnosticismo, da mesma maneira que o teísmo também o é. O ateísmo é ausência da crença em Deus, enquanto o que agnosticismo é um posicionamento neutro: nem contra, nem a favor (embora existam os agnósticos teístas e os agnósticos ateístas, dos quais falarei mais adiante – porém, ao que me parece, existem mais agnósticos ateístas do que agnósticos teístas, e talvez por esta razão o agnosticismo seja erroneamente relacionado ao ateísmo).

O agnosticismo é um posicionamento neutro, que não nega nem afirma a existência de Deus. Segundo os agnósticos não se pode afirmar que Deus existe, nem que afirmar que Deus não existe – este é um assunto que está muito além da razão humana; não se pode comprovar empírica e racionalmente a existência, assim como a inexistência, de um deus, ou deuses. Os que aceitam esta idéia e a defendem, estão convencidos – convencidos demais, na minha opinião – de que este é um argumento inabalável e inquestionável. Mas a verdade não é bem esta. Antes de prosseguir com minha argumentação, vamos considerar os três possíveis posicionamentos agnosticistas. O agnóstico teísta acredita na existência de um deus, porém assume a impossibilidade de provar que ele existe ou que ele não existe por meio da razão; você apenas pode crer, através da fé, que ele exista. O agnóstico ateísta apresenta a mesma ausência de crença em um deus que o ateu, porém com a plena convicção de que não se pode provar ele exista ou não; você apenas não crê que ele exista. E existe o agnóstico de facto, que não afirma nem nega, nem crê nem descrê – é o que eu defino por “em-cima-do-muro”. Se o agnosticismo deixa em aberto, considerando por iguais ambas as hipóteses, por que o ateísmo seria um posicionamento mais inteligente? Simples: porque se o teísmo assume que Deus existe, e o ateísmo assume um posicionamento radicalmente contrário – a não-existência de Deus –, é um tanto óbvio que se um está certo, o outro obrigatoriamente está errado. Não se pode estabelecer que ambos tenham exatamente a mesma probabilidade de estarem certos. Porque, afinal, ou Deus existe, ou ele não existe – e as evidências apontam para a não-existência. Neste contexto, o próprio teísmo seria um posicionamento mais inteligente do que agnosticismo, o que nos leva ao próximo item.

2.2 Por que o ateísmo é um posicionamento mais inteligente do que teísmo?

Demonstrei que tanto o ateísmo, quanto o teísmo, seriam posicionamentos mais inteligentes do que o agnosticismo, do ponto de vista de que ambos não compartilham o mesmo número de probabilidade de estarem corretos – para um estar correto, o outro, obrigatoriamente, tem que estar errado. E obviamente um deles está com a razão, mas questão é: qual deles estaria com a razão? É fato que o ônus da prova cabe aos teístas, que afirmam a existência de tal entidade de caráter espiritual. Porém, não há qualquer argumentação lógica e racional que defende a existência de Deus – o que já caracterizaria uma derrota dos teístas. Mas antes de me aprofundar na resposta desta questão, quero explicar por que escolhi o teísmo e não o deísmo, o politeísmo ou o panteísmo – ou mesmo por que não argumentarei sobre cada posicionamento. Primeiro porque o deísmo e o politeísmo são crenças mais raras – eu particularmente só conheço uma deísta, e ainda assim pendendo pro ateísmo, e não conheço nenhum politeísta –, e o panteísmo é praticamente, tomando emprestado o termo utilizado por Richard Dawkins, um “ateísmo enfeitado” – em geral, os panteístas consideram a energia e o cosmos, que são puramente científicos. O segundo é um motivo bastante óbvio, e uma conseqüência natural do primeiro – o teísmo é o posicionamento mais comum de um crente.

O ateísmo é a ausência da crença em um deus, ou deuses. Mas por que não crer em um deus, ou deuses? Qual o problema da crença em Deus? A resposta é simples, a falta de evidências em seu favor. O ateísmo consiste num posicionamento lógico, que não vê qualquer razão plausível para crer no ilógico – Deus. Por mais que os religiosos insistam em debater, não existe um único argumento plausível, lógico e racional em favor da existência de Deus. Porém, concordo com a definição de Richard Dawkins, que alega que não basta ser ateu por motivos lógicos e não buscar respostas para a origem da vida e do Universo. E, de fato, existem respostas plausíveis para a origem da vida e do Universo. Mas, independentemente da busca por uma resposta, recorrer a Deus é, no mínimo, buscar uma resposta fácil e reconfortante. Ao nos depararmos com a inquietante questão sobre o que originou a complexidade da vida que vemos hoje, o que há de lógico em responder que foi Deus quem criou? Ver a imensidão do Universo, os bilhões de galáxias, trilhões de trilhões de trilhões de estrelas (e mais trilhões de trilhões de trilhões de trilhões de planetas!), o que há de plausível e racional em afirmar que foi Deus quem criou tudo isso? Não é preciso estudar, nem tão pouco ser intelectual ou sequer ser alfabetizado para dar uma resposta dessas – basta saber falar. Aí está a inteligência do posicionamento ateísta! Recusar uma resposta simplista, implausível e ilógica como esta.

E existem aqueles teístas que alegam ter uma noção de Deus alheia à religião. Ora, de onde surgiu a noção de Deus? Antes das religiões monoteístas, não havia qualquer noção de um deus onipotente, onisciente e onipresente, e sim a noção de deuses e deusas. Júlio José Chiavenato, jornalista da cidade de Ribeirão Preto (cidade do interior do estado de São Paulo – a cidade que eu moro), escreve em seu livro Religião – da origem à ideologia, que a religião nasceu antes de Deus. O que é um fato comprovado historicamente! O homem inventou a religião, e a religião, conduzida por homens, inventou Deus! A inteligência do ateísmo consiste em rejeitar crer em algo criado por homens para controlar e manipular homens, como se de fato existe tal ser a ser adorado.


Não me preocupei em argumentar sobre qual seria uma teoria alternativa ao desígnio divino, uma vez que o real objetivo não é negar a existência de Deus, e sim, explicar o posicionamento ateísta. Espero ter sido claro e não ter ofendido qualquer pessoa e suas crenças. Defendo o direito de crença, mas igualmente defendo o direito à descrença. Como surgem muitos textos falando sobre Deus – ou questionando a integridade moral dos ateus – resolvi escrever uma argumentação que de fato esclarecesse o posicionamento ateísta.



Gustavo Sales Barbosa
Ribeirão Preto-SP, 2008

lord.ateu@gmail.com

4 comentários:

Sobre o Título disse...

Inteligência é termo complicado, sem definição precisa, cambaleando entre uma moral pretensiosa e uma literatura científica com muita variedade (eu, que não sou da área, conheço 7 possibilidades de definição).

Friso que o que faço por ora é argumentar, como um agnóstico, considerando posturas mais ou menos exigentes quando ao 'assumir um posicionamento'.

Se é uma questão de exigência, i.e., número de variáveis levadas em consideração por uma pessoa, então, qualquer postura pode ser tão sofisticada quanto uma ou outra. Isto depende das exigências feitas a cada pessoa, das auto-exigências... enfim.

Sobre a lógica. O fato de um determinado "sistema linguístico" ser lógico não lhe concede função para todas as ocasiões.
Para que se preste a algo produtível, para uma pessoa, sociedade, espécie, ele deve estar de acordo com as exigências do mundo.

Aliás, as espécies que se adaptam as exigências do mundo
sobrevivem, as que não se adaptam sucumbem. Você concorda? E se a forma de ela se adaptar estiver na crença?

Não raro encontramos políticos crentes em sociedades de crentes... não raro encontramos pessoas crentes em sociedades de crentes...

Claro que algumas pessoas se adaptam de forma diferente. Por isso mesmo que neste nível de análise, não cabe o argumento de "posicionamento ilógico". Porque a lógica de uns, de fato, é apenas um instrumento, que serve para algumas coisas daqueles uns, e não serve para outras, daqueles outros, como bem visto.

Crer ou não crer? Existe ou não existe? Perguntas diferentes. Eu só sei que para a segunda pergunta não há argumento, e isto simplesmente porque não há diálogo entre as comunidades que defendem uma ou outra possibilidade. O conhecimento , o fato, a lógica, todos são empreendimentos coletivos que não prescindem da argumentação. Alguns Teístas tem como mandamento não argumentar, não questionar sobre suas bases... Ateístas questionam suas bases? Agnósticos sim, esta é a regra, sempre será possível refutar. Entretanto, nem sempre se deve... as consequências estão por ai...

Vecna's cave disse...

Cara, nem terminei de ler, porque encontrei uma grave falha argumentativa em teu texto.
Quando afirma o ateísmo ser "superior" ao agnosticismo, você afirma que: " o ateísmo assume um posicionamento radicalmente contrário – a não-existência de Deus"
O que já contradiz um ponto anterior, segundo o qual o ateísmo é a o não-crer em Deus, e não a crença na não-existência de Deus.

Ademais, a argumentação seguinte se baseia na prerrogativa de que deus não existe, por isso o ateísmo "está correto" e o teísmo "está errado".
Faltou aí uma imparcialidade que julgo necessária para uma introdução ao ateísmo para aqueles que não o conhecem.

Por fim, cumpre dizer que não vislumbro diferença de fato entre crer na não-existência de Deus e não crer na existência de Deus. Para todos os fins, dá na mesma. Se buscarmos as raizes etimológicas do termo, colocadas no início do artigo, veremos também que ambas as noções de ateu estão corretas, pois ambas baseiam-se na não-existência de Deus.

E falo isso tudo como ateu. XD

Jeniss Walker disse...

O lógico para alguns pode ser sem lógica para outros. Esse argumento no texto me parece um tanto arbitrário e esse é um dos grandes desafios nas leituras sobre o ateismo. Os atues dizem que que uma crençaem Deus tornam as coisas finitas, fáceis de serem resolvidas, mas o que dizer da não crença? acho que são coisas que estão de igual para igual. E colocar em combate agnosticismo X ateísmo é de uma prepotência tamanha. No fim, voltamos aos mesmos discursos sobre quem tem a vantagem ou quem é o melhor, tão comum na história do homem perante o tempo :)

Maxwell Soares disse...

Toda debate que perpassa este tema é de uma complexidade tamanha. No entanto, parabéns pela iniciativa. Um abraço...